<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455</id><updated>2011-08-27T00:04:50.990-07:00</updated><title type='text'>Entre Baobás</title><subtitle type='html'>Os baobabs ou Baobás (Adansonia) são um gênero de árvore com oito espécies nativas notadamente do continente africano. São árvores de troncos grossos, nos quais eram guardados, por algumas comunidades, os corpos e os espíritos de seus antepassados (orixás). Morada de orixás, os baobás são símbolos de resistência dos povos negros e oprimidos. O Entre baobás é um espaço-tempo de tentativa da palavra-poesia que nasce para a boniteza da libertação.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>26</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-8355220060109466171</id><published>2008-10-17T08:53:00.000-07:00</published><updated>2008-10-18T17:49:25.315-07:00</updated><title type='text'>Fábula sobre o fim</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/SPi_MWWdBoI/AAAAAAAAAGg/FsiHEBBodsU/s1600-h/VanGogh-sunflowers.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5258162783834146434" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/SPi_MWWdBoI/AAAAAAAAAGg/FsiHEBBodsU/s200/VanGogh-sunflowers.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O fim lambuzou os olhos das horas com o suor das viagens. As horas então verteram algum desconforto, mas logo se danaram a rir. O fim contou todas as horas e nelas já havia sinais do tempo. O tempo, eu vi, vinha acocorado nos ombros de um baobá. Baobás - mas isto é segredo - caminham sempre que os tambôs dos povos negros ecoam no Pátio de São Pedro. O fim, cheirando o tempo, a tempo escreveu nas horas um breve poema tomando emprestadas as linhas das mãos de um poeta feliz. A poesia oriunda do fim deu braços ao tempo e, enraizando-se com ele no velho baobá, diluiu-se na terra. Assim surgiu a primavera. Assim - acredite - a pétala desafiou as gentes e as gentes - acarinhando-se e cortando-se em flor - desafiaram o capital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim sorriu e soube, pela primeira vez, que por mais importante que fosse, jamais existiria fatalmente. Que era cria da história, um ponto fronteiriço, mais uma travessura do tempo. Que depois do fim havia um depois, e ele não era fim, mas recomeço. O fim, agora lambuzado de seiva de baobá e de gentes, descansou tranquilo e assistiu pacífico ao modo como um moço deu ao filho de Xangô a lua de presente. O fim julgou aquilo tudo uma boniteza. O baobá que lhe sombreava o descanso, riu-se acompanhado pelas horas e cantou com elas uma ciranda. A primavera, neste instante, deitou-se no colo da tarde e viu livre o poeta que seguia. O poeta ia. Namorava a lua.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-8355220060109466171?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/8355220060109466171/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=8355220060109466171' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8355220060109466171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8355220060109466171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2008/10/fbula-sobre-o-fim.html' title='Fábula sobre o fim'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/SPi_MWWdBoI/AAAAAAAAAGg/FsiHEBBodsU/s72-c/VanGogh-sunflowers.gif' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-6088066036004634875</id><published>2008-04-29T18:44:00.000-07:00</published><updated>2008-04-29T18:55:56.489-07:00</updated><title type='text'>Crônica sobre a distância</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/SBfRmphzseI/AAAAAAAAADg/HJWEbLR60WM/s1600-h/Van+Gogh-+vincent-giardino-fiorito.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5194851157108044258" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/SBfRmphzseI/AAAAAAAAADg/HJWEbLR60WM/s200/Van+Gogh-+vincent-giardino-fiorito.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Desdobrado o espaço, faz-se a distância. Não importam metros, quilômetros. É saudade que se conta nas entrelinhas. Há longevidades não competentes à física. Há tardes, por exemplo, em que o espaço, terno, toma o tempo pela mão e passeia com ele pela Várzea, namorando displicentemente. Nada há o que marque seus passos. Seus calcanhares não percorrem quarteirões, mas orvalho, seus rastros não deixam pegadas, mas réstia de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se as margens do Capibaribe convidassem um à outra para dançar. A Rua da Aurora teria entre os lábios a Rua do Sol. A Ponte Velha pularia amarelinha com a Giratória. Oxum, rindo-se toda, estenderia o corpo sobre a cidade modificada pelo rio. Cada rua se trocaria em esquinas com todas as outras. Não haveria paralelas, somente encontros. A da União cumprimentaria a do Sossego, a das Ninfas emprestaria asas a Agamenon, que deixaria de ser avenida e perderia tal nome, chamar-se-ia Nara, palavra com mais jeito de pétala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de tanto, nada se concebe alheio à falta. Há em cada pedra portuguesa a vontade de que ali voltem a tocar as demais. Há nas ruas certa ânsia para que nelas corram todas as outras. Do que a Rua do Hospício vive, senão de uma louca vontade de que por si caminhe a Rua da Saudade? No asfalto quente das manhãs poluídas da metrópole resiste esse sentimento como num poema. Daí não haver reforma da Conde da Boa Vista que chegue. Empresas de ônibus, construtoras, automóveis e atacados desconhecem delicadezas só tangíveis por bailarinos e operários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A distância persiste à dobradura do espaço. Isso, bem do jeito como Mariana brinca com seus origâmis. É do sabor de beijo de primeiro namorado em noitinha de terça-feira. Faz escalas de mapas cartográficos entre o planalto central e a praça do Derby parecerem linhas astrais e influências zodiacais de ascendentes. Faz passagem de avião sugerir estrofe de Pessoa e tudo em nós uma Lisboa revisitada. A distância é tensão entre. Entre o Alto do Céu, na periferia de Casa Amarela, e os anéis de Saturno, a despeito de uma possível insensatez, não conheço distância. Mas entre a península itálica e o Marco Zero há muito mais do que um oceano. Há uma paixão de menina por um nariz vermelho de palhaço. E saudade, muita saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas disso, enciúma-se o tempo. Porque sabe ele que verdadeiras distâncias, não pode curar. Cultivamo-nas de modo que vivam elas conosco. Quem nunca se pensou na Rua da Aurora quando trocava pés pelas calçadas da Rua do Sol? A seu modo, num mesmo espaço vivem tantas ruas, tantas cidades, tantas gentes quanto uma saudade possa comportar. Mas isso apenas até o instante em que as margens do Capibaribe convidem uma à outra para dançar e em que avenida possa levar título de pétala. É segredo, mas suspiram as esquinas que fronteiras se desfazem em abril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Nara Vieira, por nossa distância.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-6088066036004634875?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/6088066036004634875/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=6088066036004634875' title='12 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/6088066036004634875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/6088066036004634875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2008/04/crnica-sobre-distncia.html' title='Crônica sobre a distância'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/SBfRmphzseI/AAAAAAAAADg/HJWEbLR60WM/s72-c/Van+Gogh-+vincent-giardino-fiorito.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-2890463533597076447</id><published>2008-01-07T10:30:00.000-08:00</published><updated>2008-01-07T10:38:25.657-08:00</updated><title type='text'>Crônica sobre a janela</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/R4Jwj2LYf7I/AAAAAAAAADE/-NSD9Wr1XZ8/s1600-h/Portinari+-+azul+e+vermelho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5152804684806258610" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/R4Jwj2LYf7I/AAAAAAAAADE/-NSD9Wr1XZ8/s200/Portinari+-+azul+e+vermelho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Eram sempre o cronista e a janela. Inevitavelmente, o cronista e a janela. Sentava-se ele a escrever e lá estava ela, aberta. Abria-se ela e cá estava ele, escrevendo. Por vezes havia a crônica. Por vezes havia a tarde. Mas nada disso lhes era fundamental. Bastavam-se, cronista e janela, no mais era arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando resolvia escrever, sabia o cronista o que fazer: sentava-se diante da janela, descalçava os pés, insistia com uma canção de Noel Rosa, curvava-se sutilmente sobre o braço direito, sentia uma íntima saudade do homem que amara e abria-se calmamente em janela. Aproveitava a tarde e dela retirava aquilo que o papel demandava para a criação da palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando resolvia entardecer, sabia a janela o que fazer: coloria os olhos do cronista, azulava-se de início, cor de céu de Candeias, avermelhava-se em despedida, tons de fragilidade crepuscular, sentia uma íntima saudade do homem que amara e escrevia-se calmamente em cronista. Aproveitava a crônica e dela retirava aquilo que o tempo requeria para desafiar os relógios com poemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contrariando argumentos de causalidade, qualquer que seja ela, a tarde nunca entrou pela janela, a crônica nunca saiu das mãos do cronista. Não havia cronista sem janela. Inexista janela sem cronista. Concebiam-se um ao outro. Tanto que boniteza mesmo era perceber-se verbo um do outro. Naquilo sim em que um sujeito só age e transforma o mundo a partir da realização do outro e vice e versa, coisa que há quem chame de dialética. O cronista enjanelava-se e, apenas assim, acontecia no mundo. A janela encronistava-se e, justamente por isso, era o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí ser impossível tratar a crônica e a tarde com neutralidade. Neutralidade inclusive, qualquer que seja ela, é algo completamente desprovido de poesia. A tarde não entraria pela janela porque o próprio cronista conjurava tarde em palavras. A crônica não sairia das mãos do cronista porque lá fora ela – a crônica – já era construída, embora sem pontuação, pelos desenhos das nuvens no azul. Crônicas e tardes também não se afastam. Entre as linhas da crônica a tarde caminha, entre os caminhos da tarde a crônica se completa. Que seja dialética. Há, por isso, quem apelide de ternura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Luciano Oliveira, porque as semanas são cada vez mais tempo para certas coisas e menos para outras.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-2890463533597076447?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/2890463533597076447/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=2890463533597076447' title='9 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/2890463533597076447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/2890463533597076447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2008/01/crnica-sobre-janela.html' title='Crônica sobre a janela'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/R4Jwj2LYf7I/AAAAAAAAADE/-NSD9Wr1XZ8/s72-c/Portinari+-+azul+e+vermelho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-8754203806905307564</id><published>2007-12-03T09:37:00.000-08:00</published><updated>2007-12-03T09:43:41.418-08:00</updated><title type='text'>Carta ao poeta desaparecido</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/R1RAM-00wJI/AAAAAAAAAC8/SiNWhtlDRgE/s1600-R/matisse1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5139803666503745682" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/R1RAM-00wJI/AAAAAAAAAC8/_Rj5rNBo6QQ/s200/matisse1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Se lhe perguntarem, meu amigo, o porquê de suas atuais ausências das palavras, diga-lhes que você está a largar saudades por aí, que anda de equilibrista em espiral de calendário, segue colhendo alecrim. Lembre, como que por nada, que tem ouvido uns bons sambas do Noel Rosa e que pressente cheiro de carnaval nas ruas de nosso Recife. Assegure que está muitíssimo preocupado com o futuro das andorinhas. Aproveite e fale um tanto mal da transposição do Rio São Francisco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não, meu bom amigo, não fale a verdade. Você é poeta, não é funcionário público: não tem presunção de boa-fé! Mas também não precisa mentir, porque essa coisa de “ou é verdade ou é mentira” não passa de reducionismo e essas dicotomias rasas não funcionam no poema. É só fingir um bocadinho, entende? Na vá admitir que se escreve pouco, se quase não se dá às letras, é porque o texto já lhe é, por demais, perigoso. O poema eterniza a dor. Mas assumir essas fragilidades é o fim, é eternizar o poema. E ninguém agüenta, nem mesmo o leitor mais encantado e sofrido, um poeta de repeteco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vá lá que você se encontre preso naquela mesma rima barata. É até compreensível que já não se aperceba de suas intimidades com as linhas, que nem as tardes de Candeias lhe façam repletos os olhos. Entende-se cabalmente sua incapacidade de tirar verso do que quer que seja. Nem as lembranças lhes são mais suficientes. Você desdenha do vendedor de doce japonês, dos tocadores de alfaia do Bairro de São José. Você não cumprimenta mais Iemanjá, nem se veste com a guia de Xangô. Você ignora a fabulosa incerteza das coisas. Compreensível. Mas não, meu amigo, não se deixe entregue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vão lhe dizer que isso passa e que em certo tempo você voltará ao papel. Não responda, não aceite prazo. Sim, porque isso não passa. É você quem passará isso. E quando passar, você nem mais será você... Até lá não se incomode muito. Tristeza a gente esquece nos cantinhos. Entre as páginas cinqüenta um e cinqüenta e dois dos Manuscritos Econômico-filosóficos que você deixou na mesa da sala, por exemplo. Entre uma esquina e outra das ladeiras de Olinda. Entre novembro e dezembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tristeza se desfaz nas coisas miúdas. Tudo bem que você está à espera do dia em que todos os poetas sairão às ruas e farão de automóveis versos, de asfalto, de presilha de cabelo, de vestido amarelo de Cecília, de pactos de paz, de lixo radioativo produzirão estrofes. Tudo bem que você aguarda grandiosidades, você é um poeta, mesmo o cotidiano é imenso e as joaninhas para você serão sempre asteróides. Mas a tristeza, ah meu amigo, a tristeza é discreta. Portanto, vá de calmaria. Caminhe, siga. E se lhe perguntarem o porquê de suas atuais ausências das palavras, você já sabe o que retorquir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diga-lhes que está a cozer horizontes e que conversa com os baobás sobre o materialismo histórico-dialético. Lembre-se, como que por nada, do fato de serem os baobás marxistas e de que você descobriu há pouco o cinema francês. Fale das novidades de Natália e de que agora você sabe bem onde fica a República Dominicana. Faça ar de estou-à-disposição e roube um beijo rapidamente. Não diga a verdade, mas também não minta. Dê um jeitinho daqueles seus, porque eu desconfio meu amigo, que isso já é poesia. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-8754203806905307564?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/8754203806905307564/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=8754203806905307564' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8754203806905307564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8754203806905307564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/12/carta-ao-poeta-desaparecido.html' title='Carta ao poeta desaparecido'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/R1RAM-00wJI/AAAAAAAAAC8/_Rj5rNBo6QQ/s72-c/matisse1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-3214967275050703037</id><published>2007-10-18T05:20:00.000-07:00</published><updated>2007-10-18T05:21:15.320-07:00</updated><title type='text'>Poemazinho irrisório sobre o tempo correspondente</title><content type='html'>Ela, aflita, inteira:&lt;br /&gt;- Menino, menino! Saia dessa chuva!&lt;br /&gt;Ele, de soslaio:&lt;br /&gt;- Oxe. Mande ela sair de mim.  Agora pronto!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-3214967275050703037?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/3214967275050703037/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=3214967275050703037' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/3214967275050703037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/3214967275050703037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/10/poemazinho-irrisrio-sobre-o-tempo.html' title='Poemazinho irrisório sobre o tempo correspondente'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-7616649391567777537</id><published>2007-10-12T22:20:00.000-07:00</published><updated>2007-10-12T22:30:43.850-07:00</updated><title type='text'>Crônica sobre a máquina</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RxBX-39wdeI/AAAAAAAAAC0/W4JTmc7Zh6c/s1600-h/miro-01.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120689514006738402" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RxBX-39wdeI/AAAAAAAAAC0/W4JTmc7Zh6c/s200/miro-01.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Na Cidade Alta de Olinda, num casarão rosado na subida da Ribeira, os olhos cansados da militante socialista cuidavam da máquina e do tecido. Disse-me ela boa noite quase sem atenção. Estava devotada àquilo que fazia de tal maneira que minha presença naquela casa mais se parecia com um presságio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestida com uma camisola clara, sentada num banco de madeira, apoiando os braços nas margens da mesa da cozinha, Ana Emília passeava linha e agulha entre os dedos. Mexia na máquina de costura como se pretendesse apressar setembro que, apesar da insistência do calendário em lhe contar as datas, teimava em não chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira máquina de costura que conheci era de minha avó materna, Dona Nilza, ou melhor, Vovó Nilza. Era uma máquina antiga, rodeada de mistérios. É que não tinha a máquina jeito de servir para costurar. Era um móvel de madeira envernizado semelhante a uma mesinha de cabeceira, um tanto mais alto apenas. Embaixo tinha uma parafernália de metal que, se nela qualquer menino colocasse os pés, balançava-se. Mas era proibido ali pôr os pés. Disso eu soube assim que comecei a brincar, certo dia, com a máquina: – Menino, não bula nisso que essa é a máquina de sua avó! Mas entender mesmo o porquê daquela mesa com um ferro que balança, mas que não pode ser balançado, ser uma máquina de costura, eu não entendia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrar Ana Emília entregue àquela máquina trouxe-me saudades. Talvez nem saiba ela, mas suas mãos naquela noite coseram mais que linha e pano. A militante costurou o tempo pela madrugada. Exercício árduo. Porque o tempo, em nome de quem costuma se pedir paciência, é um afoito, o danado. Quem quiser que lhe queira enlaçar agulhas de modo linear. Errará. Sinto. O tempo não se comporta assim. É por isso que os calendários não dão conta dele. Pelo mesmo motivo, não cabe aos relógios dele dizerem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo não se mede. Tempo não se acerta com ponteiros. Falam-nos uma mentira desde meninos: a de que o tempo se vê nos dias das semanas, nas horas, nos minutos e nos segundos – inclusive em seus milésimos – como em continhas de criança no ábaco do pré-escolar. Ilusão. O tempo não se enumera. O tempo tem menos a ver com cardinais e mais com cheiro de bolo no forno: - Cuidado para não queimar, Dona Maria! Tem menos a ver com dígitos e mais com o diâmetro do silêncio após o amor declarado: - Eu também te amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontecia de ser a máquina embutida. Ana Emília me trazia o mistério da máquina de Vovó às saudades na cozinha do casarão da Ribeira. Dentro da mesa de madeira envernizada havia uma máquina de costura. Num destravar de pequenos ferrolhos o tampão da mesa se abria e dava passagem a um aparelho preto com uma agulha enorme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Emília com suas linhas dobrava o tempo, fazia dele colchas, tapetes, vestidinhos de boneca, fantasias de carnaval. Lembro-me da descoberta fantástica do porquê daquele móvel ser uma máquina. Os olhos agudos de criança astuciosa a desvendar Vovó, vestida com uma camisolinha clara, sentadinha num banco de madeira, apoiando os braços frágeis nas margens da mesa que era a máquina voltavam-me com o manusear do tempo desvelado por Ana Emília.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei daquela noite com uma chuva fina fazendo festa às pedras das ladeiras de Olinda. O arrebol vinha calmo, alegre e terno, rolando pelas ruas, entre os paralelepípedos. Não cheguei a ver Ana Emília. Deixei o casarão da Ribeira sem despedidas. Não encontrei também panos, linhas ou máquina. Dei-me apenas com o resultado da madrugada da militante socialista: Ana Emília, de tanto acarinhar o tempo, cosera-me uma manhã setembrina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Ana Emília, militante do Movimento dos(as) Trabalhadores(as) Rurais Sem Terra. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-7616649391567777537?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/7616649391567777537/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=7616649391567777537' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/7616649391567777537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/7616649391567777537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/10/crnica-sobre-mquina.html' title='Crônica sobre a máquina'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RxBX-39wdeI/AAAAAAAAAC0/W4JTmc7Zh6c/s72-c/miro-01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-540120940312651707</id><published>2007-08-28T11:24:00.000-07:00</published><updated>2007-08-28T11:34:50.708-07:00</updated><title type='text'>Crônica sobre os horizontes</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RtRpyynFPBI/AAAAAAAAAB0/VsBzq4XfTUY/s1600-h/monet11.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5103820599017683986" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RtRpyynFPBI/AAAAAAAAAB0/VsBzq4XfTUY/s200/monet11.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Agosto dá sinais de despedida na janela do quarto. Deixo-a bem aberta para digerir o seu fim nos dedos que afagam o teclado. A tarde está calma lá fora. As nuvens finas são como rastros esquecidos pelos últimos dias. Iansã mantém-se sentada, com pernas e saias a balançar, na linhazinha do horizonte, fazendo cafuné, com as pontinhas dos pés, nos cabelos de Iemanjá. Nem venta muito. O mar ainda está turvo por conta das últimas chuvas, a maré alta, mas lá no fundo já se percebe o azul desmantelando o tempo e querendo significar um rascunho da chegada de setembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo se encaminha. O livro de Gramsci me espera na sala. Gustavo ainda não me mandou notícias da França. Meu pai assiste ao telejornal neoliberal no quarto. As desigualdades aumentam abismos no mundo, e, neste momento, morre mais um menino negro na periferia deste país. Dá para ouvir o apito do homem do doce japonês passeando pelas ruas de Candeias. É possível conhecer com cortesia as palavras que se espreitam na tentativa de vir ao papel. Ceumar toca na radiola. Sinto vontade de comer carolinas da Carmem.Tudo se encaminha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inclusive eu me encaminho, rendido, às letras, depois de alguns meses sem falar-lhes das coisas. E o faço para dizer a Ronaldo Monte que ele estava certo da injustiça que costumam cometer com agosto. É bem verdade que este mês antecipa meu inferno-astral – Goga entenderia melhor disso – e que Mariana destas semanas não sai livre de cicatrizes. Também é verdadeiro o fato de que esses ventos e essas tempestades e essas marés violentas bolem com os búzios de um modo que nenhum filho de Xangô é capaz de compreender. E que os coqueiros estão mais tortos, e que os dias foram mais cinzentos, e que os jambos não se agüentaram nos galhos. Mas, ao mesmo tempo, é bem verdade que agosto dá-se à feitura de horizontes a que nenhum outro mês é capaz de aludir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece quando Iansã e Iemanjá resolvem dançar maracatu. Iansã desce para dar um cheiro no rosto de Iemanjá e esta, mais velha, dá-lhe uns cascudos de brincadeirinha. Iansã balança as saias vermelhas com pressa e isso causa uma ventania incontrolável. Iemanjá, para não ficar para trás, mostra à mulher-menininha que entende demais de se sacudir. Remexe as águas e as ondas: as praias ficam todas nervosas com o alvoroço. No encalço de Iansã arrastam-se as nuvens carregando eletricidade. Pois é tanta tempestade e é tanto mar e tudo junto que os horizontes se desfazem todos e as orixás se põem a rir bem muito, achando graça dos homens e das mulheres que se perdem com suas traquinagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdidos, desprovidos de horizontes, os homens e as mulheres se lançam em novos caminhos e agosto assim vai se desenhando. Agosto, longe de ser desgosto, é uma procura, nem sempre cuidadosa procura, nem sempre resoluta procura, mas uma procura. Nos caminhos, os homens e as mulheres se deixam e se erguem, contradizem-se e arrematam-se, conhecem-se e desconhecem-se. Até que, cansados de tanta busca, percebem-se arcas de horizontes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é como andar um passo e sentir o horizonte se distanciar um passo. Ilusão que agosto desvela. Quando o rapaz caminha um passo não é o horizonte que se afasta do rapaz, é o rapaz que se afasta de quem era antes de percorrer o espaço-tempo do passo. O horizonte – e é por isso que se riem Iansã e Iemanjá largamente – não é um dado no mundo. O horizonte é um construto, é uma história, é ele mesmo dialético, como um sonho, como acordar de manhãzinha, como comer pão de queijo, como encontrar inesperadamente o primeiro amor da juventude. O horizonte, o sonho, o acordar, o comer e o encontro, todos se fazem ao tempo que nos fazem e nós nos fazemos ao tempo que os fazemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carregamos, como imensas arcas, nossos horizontes. O que não pode ser, de maneira alguma, um ato solitário. É peso demais para um sujeito só. Meus horizontes são, neste momento, uma colorida colcha de retalhos de tantos outros. Tem aqui alguma coisa de Ana Lia, ali algo de Cecília, de Manuela, além um tanto de Rodrigo, outro tanto de Iara. Há nele até mesmo as cores deste agosto. Daí ser uma injustiça tremenda desgostar de agosto. Daí eu já olhar com saudade a tarde que se vai pela janela e o agosto que se recolhe para os cuidados do tempo. Daí, Rona, eu lhe entregar estas palavras já que as suas, sobre os ventos de agosto, não me saem d’alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo se encaminha. O livro de Gramsci ainda me espera na sala. Manuela me chama para resolver alguma coisa sobre a viagem a João Pessoa da próxima semana. Meu pai fala ao telefone, trabalhando. As desigualdades aumentam abismos no mundo, e, neste momento, morre mais um menino negro na periferia deste país. Os carros se trocam com os passarinhos nas canções da tarde. Já não há mais palavras se espreitando na tentativa de vir ao papel. Ceumar ainda toca na radiola. Vou indo, comer carolinas da Carmem.Tudo se encaminha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Ronaldo Monte de Almeida.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-540120940312651707?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/540120940312651707/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=540120940312651707' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/540120940312651707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/540120940312651707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/08/crnica-sobre-os-horizontes.html' title='Crônica sobre os horizontes'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RtRpyynFPBI/AAAAAAAAAB0/VsBzq4XfTUY/s72-c/monet11.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-754371346016773891</id><published>2007-06-18T22:18:00.000-07:00</published><updated>2007-06-18T22:21:19.803-07:00</updated><title type='text'>Fábula sobre a guerra</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RndnxhQDdjI/AAAAAAAAABs/9bG18zSHLjw/s1600-h/matisse119b.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5077641205320480306" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RndnxhQDdjI/AAAAAAAAABs/9bG18zSHLjw/s200/matisse119b.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Começou quando a tristeza chegou ao coração do poeta. E nem era mesmo tristeza, era um rascunho, um ensaio, um sentimento anônimo a se alojar no pequenino espaço que há entre a cor das íris e a cor da alma. Não, não era palavra ainda. Era um impulso, algo amorfo, sem lugar no mundo que até então ali se fazia. Mas era tão grandiosa, a tristeza que nem era tristeza porque ainda não possuía nome, que as palavras todas estranharam sua presença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosas, foram todas elas, as palavras, ao encontro do novo sentimento. Buliçosas, mexeram muito com ele. A palavra-cortesia de pronto desejou ao recém-chegado as boas vindas. A palavra-sentido lhe cheirou o perfume, achando-o bastante parecido com aquele das margaridas em despedida da primavera. Lambeu-lhe, tateou-lhe, e embora tenha achado a sua pele macia, não aprovou o seu sabor. Trazia-lhe à memória o gosto de lágrimas silenciosas. A palavra-afeto resolveu conhecer com um abraço sincero aquele que se aproximava. A palavra-medo cutucou o desconhecido com a ponta do dedo indicador e, apesar da imobilidade do novato, refugiou-se rapidamente bem atrás da palavra-segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, foram todas as palavras, uma a uma, conhecer a tristeza que ainda nem era tristeza porque não possuía nome. A última da longa fila era a palavra-tempo. Sentou-se ela defronte do inominado e pacientemente esperou. Mas porque todas as outras palavras já estavam nervosas com tudo aquilo e a palavra-pressa lhe irritava um bocado, a palavra-tempo resolveu logo perguntar ao novo sentimento sobre sua história. Ele então falou de onde vinha. Disse de suas dores e da imensa desesperança que experimentava. Contou de lugares dos quais nunca se soube, de profundezas nunca dantes navegadas. E enquanto falava a tristeza que ainda nem era tristeza porque não possuía nome, como que por encantamento, deu-se à feitura da palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escreveu, dessa forma, o poeta seu primeiro verso triste. Verso este que veio seguido de outro, de mais outro e de mais tantos outros que todas as palavras passaram a se enciumar muitíssimo da palavra-tristeza. Ocorria que esta, mesmo que não escrita, diluía-se em tudo o que o poeta criava. Não havia texto seu em que ela, de um modo ou de outro, não tivesse participação. Eram crônicas e sonetos, ensaios e sextetos, canções e panfletos: em tudo se socorria à feitura da tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Organizaram-se então as palavras. Decidiram que iriam à tristeza dizer-lhe algumas boas verdades. A tristeza, sem quaisquer cuidados, entretanto, passou a tomar as palavras mais e mais para si. Devorando as palavras, sílaba por sílaba, letra por letra, cuspi-as todas através dos dedos do poeta que já não cessava a escrita. Assustadas, as palavras se puseram em fuga. Distanciaram-se largamente da tristeza. Organizaram-se mais uma vez. Foi aí que declararam todas as palavras, com todas as palavras, guerra à tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras formaram de antemão, como estratégia, trincheiras tão resistentes e fortalezas tão impenetráveis nas paredes da alma do poeta que a tristeza, imensa, restou solitária no coração. O poeta, tomado pela tristeza e por palavras inacessíveis, calou-se. Por outro lado, ocorria que a tristeza, sem palavras que lhe servissem de alimento, estava impedida de contar sua história e, portanto, de se refazer. A tristeza ia ficando esquecida. Mas isso também se dava com as palavras. Sem escrever, o poeta se desfazia e, porque nem tristeza mais podia sentir, nem saudade sentia, nem nada, tornava-se ele indiferente às palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolveram as palavras, porque era o jeito mesmo, que deveriam pactuar a paz com a tristeza. A palavra-teimosia não gostou da idéia, mas aceitou. Também teimava em não se propor a nada alternativo. As palavras todas se aproximaram por uma última vez da tristeza e lhe propuseram o anteriormente discutido. A tristeza não demorou: concordou com o pacto. Mas a palavra-desconfiança logo alertou para o fato de que a tristeza bem que poderia estar apenas a enganá-las e que melhor seria se houvesse uma testemunha para assegurar o acordo. Neste momento a palavra-lembrança citou o nome do poeta que logo foi aceito por todas as palavras e inclusive pela tristeza como legítimo interessado na questão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de muito, muito gritarem as palavras e a tristeza, o poeta veio ao seu encontro. Colheu as palavras e a tristeza entre as mãos carinhosamente e, nesse gesto, lhes testemunhou o ato que repartiu a poesia. Dali em diante, um pedaço da poesia que fazia o poeta cabia às palavras e a outra parte era de pertença da tristeza. Dali em diante, sempre que ele houvesse de escrever, colheria mais uma vez às mãos um tanto de palavras e um tanto de tristeza, em razão da feitura inteira da poesia e do seu próprio reencontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso o samba não deixará nunca de ser triste. E a valsa, por mais que bela e alegre, nunca abandonará certo ar de tristeza. Foi assim que a palavra-guerra se fez na realidade. Todas as demais que lhe tentam imitar o sentido não têm qualquer razoabilidade. Contem o que quiserem os vitoriosos do Iraque, do Haiti ou de Oaxaca: são mentiras, desafetos, desrespeitos, desamores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma única guerra bonita houve, entre as palavras todas e a tristeza. Dela não restou vencedor, também não restou vencido. Nasceu apenas o indizível sentimento existente no pequenino espaço que há entre a cor das íris e a cor da alma e que, desde então, faz de todo poeta um poeta. Sentimento este por ninguém, nem pelo tempo, jamais questionado em sua história. Permitiu-se ele ficar nas margens do não-dito e é dele que sobrevivem as raízes dos baobás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Tiago Duraes, por coisas que ele desconhece.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-754371346016773891?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/754371346016773891/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=754371346016773891' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/754371346016773891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/754371346016773891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/06/fbula-sobre-guerra.html' title='Fábula sobre a guerra'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RndnxhQDdjI/AAAAAAAAABs/9bG18zSHLjw/s72-c/matisse119b.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-6013104764948738669</id><published>2007-06-07T21:58:00.000-07:00</published><updated>2007-06-07T22:04:14.181-07:00</updated><title type='text'>Crônica sobre o que, por vezes, resta ao escritor.</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RmjjRxQDdiI/AAAAAAAAABk/M-hfce5UhoQ/s1600-h/Picasso3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5073554874650818082" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RmjjRxQDdiI/AAAAAAAAABk/M-hfce5UhoQ/s200/Picasso3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Por vezes, ao escritor resta apenas escrever. Enquanto ao carteiro restam as distâncias das cartas, as brincadeiras com a filha pequena no quintal de casa; enquanto ao médico restam as saudades da primeira paixão da juventude, a ausência dos corredores dos hospitais; enquanto ao operário restam os descansos do tijolo e do cimento, o samba da manhã de domingo; ao escritor, por vezes, resta, ausente, distante, cansado, apenas escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, ao escritor, que também é pai, que também tem filhas pequenas e quintais de casas, não há paternidade fora das palavras. Se ela – a filha – apresenta-se no teatrinho do colégio, se arruma o primeiro namorado, se entra na universidade, corre o escritor para a escrita e, nela, pare encenações, romances infantis e vitórias. Se ela – a filha – reprova em matemática, sofre com a primeira briga na escola, chora com o livro lido de Clarice, joga-se o escritor nos papéis e tira de lá números que componham versinhos e lhe caibam nas tristezas, pacificações de conflitos internacionais, lágrimas coloridas para a menina contar em porcentagens. No fim, por vezes, ao escritor resta apenas escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, ao escritor, que também se faz de endemias a curar, que também teve um primeiro amor de juventude e que, por favor, também sente saudades, nada acontece alheio às letras. Não há saúde ou doença, primeiro amor, primeira dor ou primeira solidão, juventude ou idade, saudade inevitavelmente – sem “ou” que lhe contrarie o haver – que tenham sentidos fora das palavras. Se ele ama – e sim, ele ama – e se ele sofre – sim, ele sofre – ama e sofre em linhas, sílabas, estrofes, frases, orações, sonetos: ama e sofre, duas vezes, deixando-se inteiramente em pequenas partículas de tinta preta, criando fabulosas estórias, dando vida a fantásticas personagens ou a infelizes textos com ares de ferida. Suas saudades, que para todos seriam maneiras de saudar os tempos, transformam-se em história. Suas despedidas, suas pessoas amadas que partem, fazem-se em diários. Dá-se que, não existindo para o escritor densa diferença entre real e imaginário, no fim, por vezes, ao escritor resta apenas escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, ao escritor, que também é um trabalhador, que também mantém ternuras para com as manhãs de domingo, que também cansa e samba, não há margem para o descanso. Se ele ama, ele escreve. Se ele sofre, ele escreve. Se ele educa a menina, ele escreve. Se ele deseduca o tempo, se sente saudades, ele escreve. O escritor, que por vezes apenas escreve, sempre escreve. Escreve como escravo. Conhece-se assim. Reconhece-se assaz. Mas não culpa as palavras. Mesmo consciente de que para tudo é um dependente delas, não as condena. Sabe-se escritor escravizado pelo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, pelo mundo. Porque é o mundo que teima em lhe obrigar a criar. Mas se acha estranho, o escritor escravizado. Porque percebe, assim que acarinha a poesia, que só há mundo porque há quem dê sentido ao mundo. E percebe mais: compreendendo que o mundo só está sendo mundo na linguagem, entre as pessoas que lhe garantem sentidos, e que pode ele, o escritor, criar a palavra, é ele também que faz o mundo e que, portanto, cria quem lhe obriga a criar. Se ele ama, escreve, e mais ama e mais escreve. Se ele sofre, escreve, e mais sofre e mais escreve. Se ele educa a menina, deseduca o tempo, sente saudades: ele escreve e quanto mais escreve, mais educa a vida, mais deseduca as horas, as esperas, mais aumenta as saudades. Por isso não culpa as palavras. É cúmplice delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, ao escritor resta apenas escrever. Se as palavras surgem arredias, se elas não encontram seus sentimentos, fere-se o escritor. Aí sim está sua crua tristeza: no desencontro dos sentimentos com as palavras. Sentir e não ser capaz de escrever. Aí sim, desfaz-se o homem. Numa prosa triste, numa poesia triste, não há tristeza de verdade. A tristeza afasta as palavras. A tristeza é solitária. Uma prosa triste, uma poesia triste, como esta crônica triste, acompanham-se sempre de esperanças. Não fosse assim, não haveria palavra, não haveria prosa ou poesia. Mesmo porque, no fim, resta, por vezes, ao escritor apenas escrever. E esse é o fim com mais jeito de início de todos os tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Leonardo Souza, por me deixar ler suas coisas.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-6013104764948738669?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/6013104764948738669/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=6013104764948738669' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/6013104764948738669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/6013104764948738669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/06/crnica-sobre-o-que-por-vezes-resta-ao.html' title='Crônica sobre o que, por vezes, resta ao escritor.'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RmjjRxQDdiI/AAAAAAAAABk/M-hfce5UhoQ/s72-c/Picasso3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-4669462533871192246</id><published>2007-05-22T09:51:00.000-07:00</published><updated>2007-05-22T10:10:32.360-07:00</updated><title type='text'>Ensaio sobre os “jovens carentes”. Ou melhor: ensaio sobre as palavras que carecem.</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RlMgfO82hCI/AAAAAAAAABQ/Wzg5sRn7lvc/s1600-h/Portinari+-+meninos.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5067429726683300898" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RlMgfO82hCI/AAAAAAAAABQ/Wzg5sRn7lvc/s200/Portinari+-+meninos.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Este texto, que mal comecei a escrever, é uma resposta a um anúncio bem intencionado que li no boletim eletrônico do Diretório Acadêmico Demócrito de Souza Filho, a entidade representativa dos/as estudantes de direito da Universidade Federal de Pernambuco. Digo “bem intencionado” porque realmente o julgo assim: cheio de boas intenções. Sim, intenções de gente que acha que as coisas do jeito que estão não devem continuar. Gente que acredita que uma mudança é necessária, que enxerga a existência de uma exclusão gritante, uma injustiça tremenda no mundo e que o novo deve vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O anúncio falava de uma “capacitação” para as atividades de um projeto de extensão do Diretório, o SAJU – Serviço de Apoio Jurídico Universitário. A tal capacitação, em diversas temáticas do direito, serviria para o trabalho de estudantes junto a “jovens carentes” de escolas públicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras nos pregam peças. De costume, dizem muito mais do que aparentam dizer. As palavras, e a linguagem como um todo, carregam sentidos, visões de mundo, relações de poder e ideologias dos quais nem nos damos conta. É nas palavras, na linguagem, que os homens, as mulheres se encontram. Só a partir delas, e do diálogo, os/as oprimidos(as) comungam e se libertam. Por outro lado, também é através delas – das palavras e da linguagem – que certos ideais são plantados na sociedade, naturalizados, tornados senso-comum. As palavras, que são condição de possibilidade para a libertação daqueles(as) que sofrem, muitas vezes servem se instrumento de dominação. Por isso, faz-se fundamental investigar as palavras, conhecê-las amiúde, amá-las mesmo, intimamente, ser afetuoso nelas e com elas, perceber-se nelas, sendo com elas alguém com o mundo e com os/as outros(as).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é “carente”? Ou melhor: quem não é carente? Eu mesmo, neste instante, careço enormemente de um bom almoço. Mariana, uma amiga minha, carece de remédios para os rins. Dona Fátima, a senhora minha mãe, carece da presença deste que escreve, na sala, para que a ajude a carregar a mesa de vidro. Os/as moradores(as) das palafitas da comunidade periférica da Ilha do Destino carecem de uma política governamental que efetive o direito humano à habitação em respeito à dignidade da pessoa humana. No fundo, no fundo – e sinceramente – eu careço também de alguém que me chame de “meu-bem”. Os/as estudantes das escolas públicas também carecem de muito: bom material didático, verba para a educação, políticas públicas que respeitem suas diversidades e as afirmem, uma merenda melhor, ensino de qualidade etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que vejo alguém se referir a um determinado grupo de pessoas como “carentes”, assusto-me, não posso – nem devo – negar. Com tantas carências sobre a superfície terrestre e sob a primeira pele de nossas almas, por que, afinal de contas, determinar que este ou aquele grupo social é “carente”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Normalmente esses “carentes” – aos quais se refere o senso-comum – são as pessoas pobres. Carência é falta. Às pessoas pobres faltam muitas, muitíssimas coisas, mas, sobretudo, de acordo com as necessidades impostas pelo pensamento hegemônico capitalista, falta-lhes dinheiro, capital. Ora, se falta aqui, é porque sobra ali. Às pessoas ricas, contrariamente às pobres, não falta capital. Detém elas, as pessoas ricas, inclusive, os meios de produção que aceleram o capital e geram o lucro através da mais valia. Esta, em lições - bem superficiais, diga-se de passagem – do ideário marxista com o qual coaduno, é a forma de exploração exercida por aqueles sujeitos que são proprietários dos meios de produção (as pessoas ricas) sobre aqueles outros sujeitos que não detém esses meios e que, por isso, sobrevivem cedendo sua força de trabalho (as pessoas pobres).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo com o senso-comum dominado pelo pensamento hegemônico, portanto, “pessoas carentes” são os sujeitos sociais explorados, oprimidos. As pessoas pobres são carentes. As pessoas ricas não são carentes. Os/as oprimidos(as) são carentes. Mas e os opressores? Não, de acordo com o senso-comum dominado pelo pensamento hegemônico os opressores parecem não existir, afinal todo ser que existe carece, mas os ricos não são – de acordo com o tal senso-comum – “carentes”. Explico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Carente” é uma palavra que, como toda palavra, é capaz de nos pregar peças. E, sinceramente, tem pregado peças históricas no mundo em nome de alguns interesses. Se a gente diz que Fulano é pobre, pensa-se logo na sua oposição: o rico. Pessoas pobres são sujeitos sociais oprimidos, sem oportunidades, explorados. Se a gente diz que Beltrano é oprimido, pensa-se logo na sua oposição, o opressor. Mas e quando a gente diz que Sicrano é carente? Em que a gente pensa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Carente” foi um jeito singelo que acharam para não chamar o pobre de pobre. Acontece que falar que alguém é pobre parece ser indelicado. Mais: falar que alguém é pobre lembra diretamente que alguém é rico e fazer com que o povo pobre perceba a existência de classes em conflito pode ser bastante perigoso para alguns e algumas. A palavra “carente”, usada nesse sentido, é uma palavra-máscara. Isso, uma daquelas palavras que querem encobrir outras para disfarçar a realidade excludente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Carente” é aquele que precisa de caridade. O povo oprimido precisa de libertação. A caridade é doada por quem não é carente. A libertação é conquistada pelos homens oprimidos e mulheres oprimidas na luta social, na luta de classes, no enfrentamento com o mundo, na comunhão entre aqueles(as) que sofrem. Além do mais, a caridade e a libertação possuem uma diferença fundamental: a caridade mantém as coisas como estão, os/as caridosos(as) continuam caridosos(as) e os carentes continuam carentes, mas a libertação revoluciona. Com a libertação ninguém permanece, nem se torna, oprimido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há mais um elemento interessante por trás do fato de as pessoas pobres serem identificadas como carentes e de as pessoas ricas não o serem. Afinal, quais são as carências da classe social economicamente dominante? Do que esse sujeito histórico e político precisa para continuar a existir? O que não pode faltar aos homens ricos e às mulheres ricas para que eles e elas não deixem de ser ricos(as)? Arrisco dizer que para que os opressores continuem a existir como opressores é preciso que se mantenham as relações de opressão. Ou seja: é preciso que ricos(as) permaneçam ricos(as) e que pobres permaneçam pobres. E, para fazer disso tudo algo mais singelo, é também preciso de caridade para com os/as “carentes”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esses motivos, com este texto que agora estou mal ou bem acabando de escrever, digo aos companheiros e às companheiras do Diretório Acadêmico Demócrito de Souza Filho, a entidade que me representa como estudante – e digo também a quem mais interessar – que os/as jovens com os/as quais vocês trabalharão não são “jovens carentes”. São mais, bem mais. São companheiros e companheiras, estudantes, com quem devemos fortalecer a luta social e, em comunhão, prosseguir rumo à libertação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço questão de dizer essas palavras, que também podem me pregar peças, porque nós não podemos deixar nossas boas intenções serem levadas pelo pensamento hegemônico opressor. Tenhamos cuidado com as palavras. Não por medo. Tenhamos cuidado sim, mas por afeto. Insisto: faz-se fundamental investigar as palavras, conhecê-las amiúde, amá-las mesmo, intimamente, ser afetuoso nelas e com elas, perceber-se nelas, sendo com elas alguém com o mundo e com os/as outros(as).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-4669462533871192246?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/4669462533871192246/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=4669462533871192246' title='10 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/4669462533871192246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/4669462533871192246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/05/crnica-sobre-os-jovens-carentes-ou.html' title='Ensaio sobre os “jovens carentes”. Ou melhor: ensaio sobre as palavras que carecem.'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RlMgfO82hCI/AAAAAAAAABQ/Wzg5sRn7lvc/s72-c/Portinari+-+meninos.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-4214191512293936010</id><published>2007-05-08T13:04:00.000-07:00</published><updated>2007-05-08T17:00:06.936-07:00</updated><title type='text'>Conto sobre a moça que dava nomes</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RkDY1FMnJ3I/AAAAAAAAABI/vjUrVbSEHFA/s1600-h/Picasso+-+mo%C3%A7a.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5062284387604178802" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RkDY1FMnJ3I/AAAAAAAAABI/vjUrVbSEHFA/s200/Picasso+-+mo%C3%A7a.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quando era moça, muito moça, descobriu o primeiro amor e todas as sua contradições. De um modo que se sentia nele, no amor primeiro, como um faquir indiano em uma cama de espinhos de flor, forrada – a cama – com colchas de retalhos de pétalas de metal. Às vezes, porque desde menina dava nome a todas as coisas, chamava o amor de “amor”. Mas em boa parte dos tempos, que lhes eram contados em demoras, conhecia o amor pelo nome de dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo moça, muito moça, e dada às palavras, julgou de pronto que seu primeiro amor era impossível. Por isso criou rapidamente intimidade com a dor, a quem ela mesma já havia dado título. Bulia com a dor e com o amor entre os dedos, conhecendo suas cores, nuances, realces e reflexos. Foi então que resolveu transformar as nuvens e o céu que antes manejava como poesia alegre em versos tristes. Descortinava as tristezas todas, também lhe eram íntimas as tristezas, e as achava muito bonitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque era moça, muito moça, dava nome a tudo o que produzia, mas desse tudo guardava alguns segredos. Sim, porque já que sentir saudade não mais lhe bastava, visto que era saudosa de tudo, inclusive das dores e das tristezas, passou a sentir ciúmes. Mas estes ela escondia dentro das cartinhas na primeira gaveta do armário, da melhor amiga e das entrelinhas dos versinhos que escrevia nas aulas de matemática. Além do mais, os ciúmes lhe traziam mais dores para bulir com os dedos e fazer poesia. E aprendeu de tal maneira a fazer poesia que punha as estrofes umas do lado das outras para que elas – entre elas – não ficassem enciumadas. Ah, claro. Porque as dores lhe geravam versos, mas os versos não haveriam de sofrer: nada de dor sentida pelas palavras às quais conferia a todas as coisas. Dor, saudade, ciúme, sentia ela mesma. No máximo, sentiria também o moço do primeiro amor. Mas apenas no máximo. Porque ele mesmo interessava pouco, senão como desculpa para a escrita primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas porque era moça, muito moça, e dava nome a tudo, atribuindo-lhe infindáveis, inesquecíveis, insuperáveis e inexplicáveis sentimentos – sim, era um pouco exagerada! – era perdidamente afetuosa com tudo e com tudo estabelecia – imersa em profundezas e extremidades – cumplicidades. Não entendia as despedidas. Sentia todas elas fortemente. Não desejava a morte, chorava de saudade do sol quando ele se punha, ficava ansiosamente esperando o murchar das rosas no vaso verde de sua mãe, com ar blasé, era outra depois de cada pequeno poema que lia ou escrevia, apenas para se abandonar no tempo e poder, deixando-se, fazer falta a si mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visto que era moça, muito moça, dando nome e intensidade a tudo o que criava, não nomeava, mas intensificava, aquilo mesmo que fazia. Eram tão seus aqueles sentimentos – que eram os mais inabaláveis – e tão suas aquelas palavras – que eram as mais doloridas – e tão seu tudo aquilo que lhe fazia bulir amor e dor entre os dedos, quem nem lhe passava pela cabeça lhes dar nome. Sua mãe chamava de drama, coisa de moça muito moça. Mas não, não era drama assim. Para ela, a moça, muito moça, o processo de criar tudo conhecendo as dores, os amores, os ciúmes e as saudades, com detalhes, parecia fascinante. E sendo ela desse jeito, moça, muito moça, restava-lhe sofrer por desatino o seu primeiro amor inteiro, até o fim, para que chegasse o segundo amor, e viesse então o terceiro, o quarto talvez, e para que ela voltasse a fazer, entre os dedos, mais poesia de palavras – doloridas – que não se deixam doer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-4214191512293936010?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/4214191512293936010/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=4214191512293936010' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/4214191512293936010'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/4214191512293936010'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/05/conto-sobre-moa-que-dava-nomes.html' title='Conto sobre a moça que dava nomes'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RkDY1FMnJ3I/AAAAAAAAABI/vjUrVbSEHFA/s72-c/Picasso+-+mo%C3%A7a.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-3874206703801684807</id><published>2007-05-01T09:32:00.000-07:00</published><updated>2007-05-01T09:33:13.850-07:00</updated><title type='text'>Poemazinho sobre a lembrança</title><content type='html'>Porque amei como um filho de Iansã&lt;br /&gt;Em tempestades vermelhas de abril,&lt;br /&gt;Porque amei como um filho de Xangô&lt;br /&gt;Como raio que se crava em dura rocha,&lt;br /&gt;Limpei com versos os dentes&lt;br /&gt;Sujei com poesia as íris&lt;br /&gt;Sentei nos degraus da memória&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-3874206703801684807?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/3874206703801684807/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=3874206703801684807' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/3874206703801684807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/3874206703801684807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/05/poemazinho-sobre-lembrana.html' title='Poemazinho sobre a lembrança'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-1391922710090821606</id><published>2007-04-29T10:23:00.000-07:00</published><updated>2007-04-29T19:40:27.794-07:00</updated><title type='text'>Conto sobre a menina que dava nomes</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RjTVmVMnJ2I/AAAAAAAAABA/Y7_OWZTfNA4/s1600-h/Picasso+-+Maya_with_a_Doll_Picasso.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5058903135945697122" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RjTVmVMnJ2I/AAAAAAAAABA/Y7_OWZTfNA4/s200/Picasso+-+Maya_with_a_Doll_Picasso.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quando era menina, muito menina, deitava-se na cama, de um modo que, cruzando-a, punha as pernas para cima, encostadas na parede, deixando a planta dos pés viradas para o teto do quarto. Às vezes erguia também as mãos. Assim, com pés e mãos voltados para o alto, parecia perseguir o branco do teto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo menina, muito menina, desfazia a cama, a parede, o teto, o quarto enfim e tudo recriava. Do branco tirava nuvens grandes com as quais podia brincar com as pontas dos dedos. Do azul da pintura das paredes, recolhia o suficiente de cor para garantir certo ar de infinito ao recém-nascido céu. Dali em diante tudo era novo e bastante mutável. Dependia apenas dos gestos encantados que desenhava no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque era menina, muito menina, dava nome a tudo o que produzia. A todas as coisas atribuía sentidos. Mas porque desde cedo havia aprendido a sentir saudade, embora não soubesse pronunciar a palavra, preocupava-se sempre em se aproximar daquilo tudo que criava. Entendeu menina, muito menina, que tecia vínculos com o mundo a que dava vida. E aprendeu de tal maneira que corria de um lado para o outro com suas nuvens a procurar todas as coisas. Fazia-lhes visitas e respeitava quando elas – as coisas que criava e dava nome - precisavam de espaço. Bem conhecia das superfícies, bem acariciava os profundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas porque era menina, muito menina e dava nome a tudo, atribuindo-lhe sentidos, era perdidamente afetuosa com tudo e com tudo estabelecia – em superfícies ou profundezas – cumplicidades. Sim, e respeito. Entendia quando algumas das coisas que criava ganhavam asas e procuravam outros céus e outras nuvens. Nestes momentos, abria bem muito as palmas das mãos e se despedia com afeição do que partia. Via costumeiramente isso ocorrer com as estrelas. Isso porque menina, muito menina, ouviu de sua mãe que seus olhos eram nascedouros de estrelinhas. Pensava que, quando era noite e tinha que dormir e o céu já não estava sob o controle das pontas dos seus dedos, as estrelinhas iam todas embora para um céu escuro, bem diferente do seu. No seu céu azul de menina com as pernas para cima, estrelas cintilavam mesmo durante o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visto que era menina, muito menina, dando nome a tudo o que criava, não nomeava aquilo mesmo que fazia. Era seu aquilo, mas tão seu, mas tão seu, que nem lhe passava pela cabeça lhe conferir título. O processo de criar tudo e de dar nome a tudo o que criava não tinha nome próprio. Acontece que era ela aquilo. O espaço-tempo em que ela, ao passo em que conduzia nuvens e roubava o azul das paredes do quarto, fazia-se menina, muito menina, pertencia ao mundo do não-dito. E, sendo ela assim, menina, muito menina, bastava-lhe chamar poesia com seu próprio nome de menina. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-1391922710090821606?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/1391922710090821606/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=1391922710090821606' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/1391922710090821606'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/1391922710090821606'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/04/conto-sobre-menina-que-dava-nomes.html' title='Conto sobre a menina que dava nomes'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RjTVmVMnJ2I/AAAAAAAAABA/Y7_OWZTfNA4/s72-c/Picasso+-+Maya_with_a_Doll_Picasso.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-8834127667188020397</id><published>2007-04-16T13:26:00.000-07:00</published><updated>2007-04-16T13:28:06.836-07:00</updated><title type='text'>Crônica sobre o inesquecível</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RiPcNQkpvQI/AAAAAAAAAA4/YscaW0DDU1w/s1600-h/Tarsila+-+Lua.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5054125327184936194" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RiPcNQkpvQI/AAAAAAAAAA4/YscaW0DDU1w/s200/Tarsila+-+Lua.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Do jeito que eu tinha de olhar restaram silenciosos sorrisos e um certo ar de desolação. Talvez tenha restado também alguma solidão, que só existe – e insiste – porque não haveria poesia desprovida de um miúdo de tristeza. Do jeito que eu tinha de olhar ficou uma dor aguda, uma alegria esparramada, um mania teimosa de cuidar das superfícies e acariciar os profundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, enquanto de soslaio encaro o tempo e suas vociferações, a cidade reclama com o passado. Não aceita ela o fato de se sentir coberta por ele. Não quer ela está sob ele quando a rosa se desmancha, murcha e os transeuntes recordam-na rósea, esguia, em primavera. Não admite ela estar suja dele quando os salões de baile se esvaziam de casais de dançarinos e a moça da limpeza é capaz de sentir com a vassoura a ausência da valsa que o chão desprende. Não compreende a cidade o jeito como ao olhar para uma esquina, ao passar por uma rua, ao entrar em uma porta, ela mesma dá lugar ao meu jeito de olhar o homem que amei naquela esquina, atravessando aquela rua, saindo por aquela porta. Não percebe a cidade que, ainda que sem querer, exala nossos amores. Manifesta ela momentos. Sente ela falta de si. A cidade sente saudade de si. Não percebe, ou percebe, e reclama com o passado interminavelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do jeito que eu tinha de olhar restaram compreensões que só tenho hoje porque hoje, da cidade, vejo no tempo – e em suas vociferações – o jeito que eu tinha de olhar. E nele, há muito. Acontece que não se enxerga a cidade com dois olhos apenas. Sim, é preciso de alma para enxergar a cidade. É preciso de tato, de toque, de paladar para enxergar. Mas mais do que isso: é fundamental que haja mais do que dois olhos para olhar a cidade. Justamente porque ninguém vê o mundo em solidão. A cidade, para ser conhecida, demanda companhia. Conhecer, apreender, requer, além de tempo, compartilhamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cavalheiro se desloca no salão e desvenda seus mistérios enquanto troca passos com a dama. A rosa se faz e refaz inesquecível no cheiro da pessoa amada. Esquinas, ruas e portas comportam-se em forma de lembranças porque em esquinas, ruas e portas ele estava e eu o amava. Não houvesse um outro ele brincado com os versinhos da canção de Chico no ouvido dela, o espaço-tempo existente entre uma palavrinha e outra da canção desfar-se-ia de sentido para Mariana. A cidade só se dá no tempo e apenas se permite conhecer na ação de homens e mulheres através dele. A cidade reclama com o passado como o verso decassílabo reclama da métrica. Não fossem o passado e as marcas que lhe deixamos em atos de partilha, a cidade se perderia em suas próprias avenidas e calçadas. Não fosse a métrica, a rígida forma, o verso decassílabo perderia toda a poesia que há em sua ânsia por ser livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade, suja de passado, ganha marcas do inesquecível. Estas se desenham com tintas de aquarelas de cores despetaladas também chamadas de saudade. Assim que os homens e as mulheres com elas pintam, deixam um bocado de si. E é exatamente esse bocado a matéria que marca, de inesquecível, salões de baile, jardins de rosas, ruas, esquinas e portas, versinhos de canções de Chico. A mistura dos bocados constrói a cidade que, pensando que se encobre de passado, realiza-se verdadeiramente a partir dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do jeito que eu tinha de olhar restaram bonitas vontades de ver meus olhos encobertos por outros. Sim, porque ainda que reclamemos e acusemos olhares alheios de responsáveis por nossas cegueiras, é apenas quando nos damos os olhos a enxergar sob outros olhos que nossos olhares se realizam. A cidade repleta de passado, nossos olhos repletos de olhares e um bocado de nós sempre a fazer pedaços do mundo e do tempo inesquecíveis. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-8834127667188020397?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/8834127667188020397/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=8834127667188020397' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8834127667188020397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8834127667188020397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/04/crnica-sobre-o-inesquecvel_16.html' title='Crônica sobre o inesquecível'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RiPcNQkpvQI/AAAAAAAAAA4/YscaW0DDU1w/s72-c/Tarsila+-+Lua.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-8218359701833077656</id><published>2007-03-29T11:55:00.000-07:00</published><updated>2007-03-30T04:44:44.136-07:00</updated><title type='text'>Poeminha sobre amores inabaláveis</title><content type='html'>sapatos pedem pés&lt;br /&gt;pés pedem chãos, terras molhadas&lt;br /&gt;terras molhoadas pedem...&lt;br /&gt;pedem seu próprio cheiro, no verão&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-8218359701833077656?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/8218359701833077656/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=8218359701833077656' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8218359701833077656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/8218359701833077656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/03/poeminha-sobre-amores-inabalveis.html' title='Poeminha sobre amores inabaláveis'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-330746298374732925</id><published>2007-03-13T14:19:00.000-07:00</published><updated>2007-03-13T14:21:57.953-07:00</updated><title type='text'>Crônica sobre o silêncio</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RfcVlhE8QZI/AAAAAAAAAAg/IEkDXumwrzU/s1600-h/picasso294.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5041522042142998930" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RfcVlhE8QZI/AAAAAAAAAAg/IEkDXumwrzU/s320/picasso294.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Para um homem dado à feitura das palavras, o silêncio poderia, de antemão, parecer estranho. Assim como soaria antagônica, em tese, a conjunção de letrinhas que gera o vocábulo responsável pela sua própria ausência. Dá-se, no entanto, que o silêncio não silencia. É bem provável que, segundo o senso comum, não imita sons, não principie a música, torne inoportuna a poesia. Mas não, insisto, ele não silencia. Isso porque há palavras só pronunciáveis em silêncio. Da mesma maneira, existem passos, valsas, notas e instrumentos musicais, sambas e tocares de mãos que só se permitem dançar no silêncio. Há versos recitáveis sem que a boca desenvolva qualquer movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem dado à feitura das palavras não poderia se furtar à feitura do silêncio. O fizesse, correria o risco de se manter distante da cumplicidade. É que poucas coisas dizem tanto da cumplicidade quanto o silêncio. É como quando estou, nas longas distâncias em que percorremos juntos, ao lado de Mariana no carro. Há sempre um momento em que ambos se calam. Depois de tudo o que é dito, das trocas de palavras, umas arredias, outras dóceis, umas mansas, outras ariscas, o silêncio se contempla. E fica ali – quase tangível – entre o homem e a mulher, recebendo-o e recebendo-a como quem conforta e fala de liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, liberdade. Porque a partir do silêncio cada uma das almas ganha, livre, asas e paira sobre outros terrenos. Por mais que minha atenção seja chamada pelo trânsito, pela estrada, resta ali mais corpo e menos homem. Restam, em verdade, dois corpos frágeis e desatenciosos, entregues um aos cuidados do outro, um à fidelidade do outro. Mas são corpos apenas. Mariana e Roberto, ela mesmo e ele mesmo, abandonados um ao outro, já nem mais existem no automóvel. Visitam memórias, sentem alegrias e tristezas, pensam no trabalho, nas leituras, nas atividades do movimento. Por vezes até percebo, durante o silêncio, Mariana sorrindo singelamente. Estar livres ao mundo não faz deles – de Mariana e Roberto – todavia, desvinculados. Pelo contrário: livres são na confiança de um na ausência presente do outro, porque há uma fé incontestável no outro que, às vezes, ela e ele chamam de amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No amor, percebe-se que o silêncio não se confunde com a solidão. O silêncio existe mediante a espera. A solidão é tão sozinha que já não espera nada de ninguém. Nas folhas que o poeta carrega, ainda que nelas não haja quaisquer palavras, há entre eles – o poeta e as folhas – uma potencialidade. Espera-se – e isso é uma esperança – que do silêncio brote poesia. Entre a musicista com seu violino e o violino da musicista, há a mesma relação. O silêncio de ambos, um defronte o outro, é a espera de um pelo outro em razão da canção. Assim como acontece com o moço apaixonado que aguarda ansiosamente que o telefone toque enquanto o aparelho não imite uma vibração sequer. Ligue ou não ligue a pessoa tão desejada, corresponda ou não ela ao sentimento que move o moço à espera, daquele silêncio viverá algo, seja esse algo uma ida à roda gigante da cidadezinha do interior para comer maçã caramelada, seja ele uma lágrima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solidão, por sua vez, é uma desesperança só. E por mais que seja ela fundamental a certas pessoas, deve ser passageira. Parece saudável que seja desse modo. A solidão não silencia. A solidão devora. É por esse motivo que os homens e as mulheres que sonham e se libertam, os fazem em comunhão, nunca sozinhos ou sozinhas. É também por esse motivo que não devemos machucar o silêncio, perverter-lhe seus mistérios, desrespeitar-lhe os sabores. O silêncio é sagrado, faz-se como uma prece. Não é por acaso que alguns religiosos prefiram orar em silêncio, uns ao lado dos outros. Religião vem do latim religare: retomar-se em si e nas divindades, mas com os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio, como a palavra, é compartilhamento, manifestação da linguagem. Erra quem julga que o silêncio não fala. Há por um acaso mais a dizer depois de um eu-te-amo sem resposta proferida, quando tudo que se quer ao dizer eu-te-amo é ouvir eu-te-amo em troca? Quem ama e diz e quem não ama e cala falam um ao outro, sem exceção. Está lá tudo o que precisa ser comunicado. A partir de então – e só a partir de então – vem a solidão. Não havendo mais o que ser dito, em som ou em silêncio, não há mais o que esperar. Por isso, é imprescindível compreender o silêncio. Não que essa compreensão evite a dor. O fato de eu ler um soneto de Vinícius não me faz menos ou mais preparado para amar e não ser amado. Mas simplesmente para nutrir coragem no lidar com a sinceridade. A sinceridade, em certas ocasiões, também silencia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto mesmo, entretanto, eu preciso confessar, do silêncio posterior ao beijo. Daquele silêncio que só se cumplicia no instante seguinte à despedida dos lábios. Quando não há palavra que descreva, quando não há eu-te-amo dito que baste, quando só o silêncio ocupa os espaços entre os olhos. Gosto mesmo, eu preciso confessar, do silêncio posterior à feitura do amor, quando os corpos – e quem sabe as almas – se despedem, deixando-se um no outro, uma na outra. Gosto mesmo, eu preciso confessar, do silêncio posterior à criação da palavra, do texto, da crônica, do afeto. Quando quem escreve começa a sentir saudade das letrinhas que deitou nas linhas. Quando quem lê toma aquilo como seu. Gosto mesmo, eu preciso confessar, do silêncio que, depois do grito, transforma a indignação em consciência e a consciência coletiva em revolução. Quando, no silêncio e na palavra, a esperança se refaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Mariana Azevedo, pelos nossos caminhos a Candeias.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-330746298374732925?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/330746298374732925/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=330746298374732925' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/330746298374732925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/330746298374732925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/03/crnica-sobre-o-silncio.html' title='Crônica sobre o silêncio'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/RfcVlhE8QZI/AAAAAAAAAAg/IEkDXumwrzU/s72-c/picasso294.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-4910611365768909425</id><published>2007-03-10T17:26:00.000-08:00</published><updated>2007-03-11T17:13:48.247-07:00</updated><title type='text'>Poemazinho da dor enunciada</title><content type='html'>Veio com as mãozinhas vazias&lt;br /&gt;Saiu carregando alminha minha&lt;br /&gt;Que agora lhe escorre entre os dedinhos&lt;br /&gt;E cá faz pocinhas em formas de saudade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Renata na praça&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-4910611365768909425?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/4910611365768909425/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=4910611365768909425' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/4910611365768909425'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/4910611365768909425'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/03/poemazinho-da-dor-enunciada.html' title='Poemazinho da dor enunciada'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-2727857468889910912</id><published>2007-03-07T16:00:00.000-08:00</published><updated>2007-03-07T16:18:31.261-08:00</updated><title type='text'>Crônica sobre o entre</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/Re9UP5BTuhI/AAAAAAAAAAY/iY_6KZGW3s8/s1600-h/Matisse.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5039339140031953426" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="168" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/Re9UP5BTuhI/AAAAAAAAAAY/iY_6KZGW3s8/s320/Matisse.jpg" width="239" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Entre o menino que olha e o horizonte há algo que é maior que o menino, incabível no horizonte. Entre as letras destas palavras, mesmo entre as próprias palavras e o papel, há uma substância intocável e silenciosa que por vezes se pretende poesia. Sabe-se de sua existência como de um segredo. Entre a voz dos trovões de Xangô e os raios das tempestades de Oyá há uma energia inominável, da mesma áurea dos fins vermelhos das tardes de Candeias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre a carta escrita e o moço apaixonado há uma cumplicidade esperançosa, uma espera por resposta, um saltitante temor de sua ausência. Entre a burguesia e o povo há a dominação, mas há de haver a luta de classes, a libertação. Entre as mulheres, entre os homens, há a linguagem. Entre deus e o diabo há um deixa - quieto. Entre as mãos das crianças dançando ciranda há suor. Mas há mais: há ritmo entre as mãos das crianças cirandeiras. Entre o código e o Poder Judiciário há uma triste cegueira para a realidade. Entre amigos, entre amigas, há irmandade. Entre irmãos, irmãs há uma árvore genealógica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o cabra que paquera e aquele que é paquerado há investimento. Entre o charque e a macaxeira há óleo, o Mercado da Madalena, tradição, sertão. Entre o sertão e a zona da mata há jovenzinhos cortando cana, latifúndios. Entre os latifúndios e a ordem das coisas há o Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra. Entre Mainha e minha janta há a padaria. Ela ficou de comprar o pão. Entre a massa e o fogo há fermento. Entre o ponto final e o início da oração seguinte há uma inexplicável ânsia por parágrafos. Entre o passado e o presente há uma gestalt em fechamento. Entre o presente e o futuro há o desejo de escrever um livro. Entre o presente e o agora há uma dádiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as teclas e os dedos há a descoberta da palavra, criação. Entre os homens oprimidos e as mulheres oprimidas na busca por sua emancipação há diálogo. Entre quem desenha letrinhas no escuro, à noite, com a cabeça no travesseiro e quem deita as letrinhas no texto há certa coragem. Entre a saudade e a distância há dor, tempo. Entre os ponteiros do relógio há versos decassílabos. Entre a atriz e o espectador há o palco, o fantástico, o aplauso. Entre o médico e a paciente há confiança. Entre o parlamentar e o votante há pretensão de representatividade. Entre o santo e a beata há fé. Entre o bem e o mal há um tango argentino. Mas entre o amor e a tristeza há um samba inexoravelmente. Entre esta alma e o baobá há proteção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o sujeito e o predicado há o verbo, a ação. Entre a tapioca e o coco: queijo coalho. Entre o sonho e a realização há a coletividade. Entre a lua cheia e o mar há Iemanjá. Entre a embalagem e o pão de queijo há polvilho. Entre o cinema e o filme há pipoca. Entre este eu e todos os outros há múltiplas personalidades. Entre a canção e o violão há cifras. Entre as estrofes, não há nada necessariamente, há tudo sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sempre algo que não sou eu, que não é você, que nos é inteiriços e por partes, sendo maior que nossa soma, entre nós dois. Há sempre algo que só existe porque nós existimos, mas que a partir de nosso encontro, do toque, da descoberta, do compartilhamento, ganha vida própria, evoca sentimentos, faz dançar os sorrisos e as divindades. Há sempre um segredo, um sussurro, um tilintar no meio da noite, um sol se retirando, uma porta entreaberta. É como o beijo. Há sempre mais que duas bocas, diferentes amilases salivares, duas línguas. Há o beijo propriamente, o beijo que está sendo, que faz falta, que – claro – só existe porque a ele nos dispusemos, mas que transborda. O beijo transborda as margens de Oxum, nossas propriedades sobre ele. O beijo não tem donos, arrendatários, hipotecários. O beijo é mais do que seus criadores, mais do que criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um sentimento de mundo entre o que é vivo, entre o que requer, entre o que cria poesia. Há um vínculo para além da participação fundamental de cada um considerado individualmente. Há um amor que só se explica nas simbioses, que supera as particulares necessidades. Há entre nós – o povo, as gentes – algo que necessita, que se interessa, que sente, que grita, que luta, que liberta. Há entre nós a ânsia pela coletividade. Há entre nós um ser que só é porque está sendo entre pessoas, entre mundos, entre sentires, entre versos. Há esperança nas entrelinhas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-2727857468889910912?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/2727857468889910912/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=2727857468889910912' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/2727857468889910912'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/2727857468889910912'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/03/crnica-sobre-o-entre.html' title='Crônica sobre o entre'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/Re9UP5BTuhI/AAAAAAAAAAY/iY_6KZGW3s8/s72-c/Matisse.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-7074780031635764145</id><published>2007-02-25T18:41:00.000-08:00</published><updated>2007-03-02T05:26:47.779-08:00</updated><title type='text'>Crônica sobre os sorrisos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/ReJJ5DQXDJI/AAAAAAAAAAM/_QvIeCb0Ahg/s1600-h/Dali+-+borboletas.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5035668577828932754" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/ReJJ5DQXDJI/AAAAAAAAAAM/_QvIeCb0Ahg/s320/Dali+-+borboletas.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Ornela olhou, julgou e prontamente palavreou: o sorriso de Roberto está borboletografando. Dizia isso e bulia no ar com as brancas mãos e os finos braços erguidos. Parecia desenhar – no ar em que bulia – os caminhos das asas das borboletas. Aqueles atos e aquelas palavras, naquela noite de quarta-feira de cinzas, tinham muito jeito de poesia. Ornela, a militante da assessoria jurídica popular, criava a palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algum tempo os sorrisos fazem parte de meu imaginário. Ao lado dos abraços e dos dizeres, dos olhares e dos sentires, dos baobás e das tardes setembrinas, os sorrisos se apropriam de parte significativa daqueles meus pensamentos mais carinhosos. Ocorre que os sorrisos – ação e idéia – acarinham o mundo livremente. Se a voz é, como diria Helder, uma expansão da alma, o sorriso é o modo como ela se espreguiça. Mas não se trata daquele espreguiçar cansado, letárgico, morto. Falo daquele espreguiçar das manhãzinhas, depois de desejar bom dia à alvorada, daquela preguicinha gostosa de ser feliz, da vontade de restar mais cinco minutinhos no colo de Morfeu. O sorriso é o jeito bonitinho de os sentimentos se sentirem à vontade. Nele fica tudo em cima da mesa, à mostra, em panos limpos. É por isso que os burgueses deveriam ter muito medo do sorriso dos povos: vai que eles juntos se encontram à vontade para o sonho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz meses que penso sobre os sorrisos. De antemão foi por causa de Rodolfo, não posso – nem devo – negar. Apanhei-me, em meio a uma conversa, achando que havia sorrido como ele, daquele jeito que ele faz, mostrando bem muito os dentes de cima, fechando o olho esquerdo e mexendo os ombros pra cima e pra baixo. Fiquei preocupado, não posso – nem devo – negar. E tal preocupação me rendeu tempos e tempos, daqueles que não se contam com os relógios, pensando sobre o fato. Até que cheguei à conclusão de que esse fenômeno diz respeito à congruência dos sorrisos. Toda alma tem seu modus-espreguiçandi, seu feitio para deixar os sentimentos afoitos, mas porque nenhuma alma é alma em si, porque almas só são almas com outras almas e porque isso, para além de teoria da linguagem, é poesia, nada mais esperado que no momento da preguiça haja um encontro de almas. É assim que eu ando sorrindo com olhos de peixe morto e o bocão bem à mostra, como Cecília. Também é por isso que tenho sorrido com os dentes de cima e de baixo todos bem expostos, ao gosto de Aristóteles. Não posso esquecer nunquinha dos sorrisos de boca miúda de Mariana. A congruência dos sorrisos quer dizer que, além do carinho que por si só os sorrisos fazem ao mundo, há um acarinhar que só se dá porque o mundo só está sendo mundo entre sorrisos. Coisas assim, são como dizer eu-te-amo logo ao acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A afirmação de Ornela, segundo a qual meu sorriso borboletografava, trouxe-me novos pensamentos. A palavra da militante me conduzia em aventuras silenciosas e coloridas nas espreguiçadeiras de minha própria alma vermelha. Borboletografar é uma soma de borboletas e grafias. O verbo não deixa certos, no entanto, o sujeito e o predicado. São as borboletas que escrevem os sorrisos? São os sorrisos que palavreiam as borboletas? A grafia é palavra simplesmente? Pode ser desenho, imagem, som, paisagem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tanto e amiúde acarinhar meus pensamentos com essas e outras vastas interrogações cheguei a uma segunda conclusão, de certo modo próxima daquela sobre a congruência dos sorrisos. A borboletografia nasce com um pequeno rebuliço no pé da barriga, remexe todo o corpo e desestabiliza sentimentos, harmoniza o sujeito com um estado de coisas inominável mas que se parece muito com um céu de carneirinhos numa tarde da Várzea. Depois de nascida, a borboletografia dança com a palavra. Daí em diante não se sabe mais quem dá vida a quem. Em alguns instantes as palavras vivificam borboletas, noutros as borboletas geram palavras. As borboletas e as palavras se desenham mutuamente, escrevem-se umas nas peles das outras, enraízam-se em nossos corações. É aqui que a alma se sente à vontade com seus sentimentos e se espreguiça plenamente. É aqui que o sorriso se reflete no ar bulido pelas mãos de Ornela na noite da quarta-feira de cinzas. Coisas assim, são como dizer eu-te-amo logo antes de sonhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A borboletografia não se desenvolve, é preciso que se afirme, entretanto, em solidão. E é por isso, exatamente, que a congruência de sorrisos lhe é tão próxima e fundamental. As mãos de Ornela desenhando no ar meu sorriso e suas borboletas, remetiam-me imprescindivelmente a um outro sorriso. Naquele espaço-tempo acontecia de todas aquelas borboletas que me invadiam a alma vindas do rebuliço original, levarem-me as espreguiçadeiras todas ao encontro do sorriso de um moço pouco conhecido, de pequenos encontros, de alguns dias apenas – embora nesse caso o tempo também não se conte em ponteiros ou relógios – mas que me punha esperanças e asas coloridas nas cinzas da quarta-feira. A borboletografia dava às congruências sorrisos tocados em meio ao carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insisto: é por isso que os burgueses deveriam ter muito medo do sorriso dos povos: vai que eles juntos se encontram à vontade para o sonho! Vai que as gentes descobrem que borboletas são capazes de transportar sorrisos e almas a se espreguiçar. Vai que os homens e as mulheres compreendem que a boniteza pode ser democratizada. Correriam muitos riscos os burgueses se as borboletografias fossem ensinadas nos livros colegiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ornela olhou, julgou e prontamente palavreou: o sorriso de Roberto está borboletografando. Tudo bem, Ornela: a poesia quer ficar sorrindo. Que seja entre asas, portanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Tiago Duraes, por ter me perguntado – imprescindivelmente - se nachos eram um prato italiano.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-7074780031635764145?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/7074780031635764145/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=7074780031635764145' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/7074780031635764145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/7074780031635764145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/02/crnica-sobre-os-sorrisos.html' title='Crônica sobre os sorrisos'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SlxNKI_L9GA/ReJJ5DQXDJI/AAAAAAAAAAM/_QvIeCb0Ahg/s72-c/Dali+-+borboletas.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-264252160763177507</id><published>2007-02-22T11:21:00.001-08:00</published><updated>2007-02-22T11:23:13.550-08:00</updated><title type='text'>Sobre a conjuntura nacional</title><content type='html'>Do jeito como as coisas vão&lt;br /&gt;Pelos caminhos que nos apresentam,&lt;br /&gt;Neles nem vou nem fico,&lt;br /&gt;Rasgo o tempo,&lt;br /&gt;Enlaço-me na linhazinha do horizonte,&lt;br /&gt;Escrevo um verso sobre a revolução,&lt;br /&gt;Faço-me partícipe de mais e mais gentes&lt;br /&gt;E resisto, com rosas vermelhas, resisto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia quer ficar sorrindo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-264252160763177507?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/264252160763177507/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=264252160763177507' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/264252160763177507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/264252160763177507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/02/sobre-conjuntura-nacional.html' title='Sobre a conjuntura nacional'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-117065086519594943</id><published>2007-02-04T20:43:00.000-08:00</published><updated>2007-02-04T20:47:45.220-08:00</updated><title type='text'>Fábula sobre o amor</title><content type='html'>No início, antes mesmo do verbo, quando apenas os baobás corriam pela terra e a pangéia unificava o solo continental entre as águas, o amor achou de se instalar neste mundo. Os baobás, curiosos, foram ao encontro do recém-chegado sentimento. Ele era tão grande e tão bonito que os baobás, com suas raízes, tocaram-no. Como não acarinhar o amor? Beberam tanto amor, mas tanto, que engordaram imensamente os baobás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pesados e fortes como nunca, nutriram-se de coragem e resolveram correr, um para cada lado, pela terra, para alertar todos os outros baobás da vinda do amor. Correram incansavelmente os baobás. Não sabiam eles, no entanto, que a distância é algo que machuca o amor. Que amor, por ser amor, vivifica-se em comunhão. Passaram então os baobás a conhecer da solidão. Mas a solidão não era bonita como o amor, embora fosse também grande. Entenderam, ainda assim, os baobás, que não deveriam se prender à solidão. Corriam todos eles com um mesmo desejo e de uma forma ou de outra, estavam sim uns com os outros, sempre. Deste entendimento, que se criou em todos os baobás, brotaram suas primeiras flores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasceu também uma invisível áurea que ligava cada baobá aos demais.  A áurea, uma linha fina e vermelha, era feita do amor que os baobás tinham engolido e afastava ela a solidão. Dessa linha, revelou-se a palavra. Quanto mais distante iam os baobás, mais amor era levado à áurea, mais amor saia de seus troncos, que se tornavam cada vez mais vazios. Enfraqueciam os baobás por isso. De um jeito que quando a pangéia começou a se repartir, de tanto que os pesados baobás corriam sobre o solo, eles nem conseguiram voltar a se reunir. Permaneceram vazios e distantes, ligados por uma áurea feita de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem forças suficientes, os baobás não puderam mais correr. Enraizaram-se no solo para que não despencassem. Foi aí que o amor, preocupado com tudo o que trouxera aos baobás, decidiu lhes dar solução, evitar suas mortes. Gritou alto o amor, muito alto, e seus gritos eram de poesia. Chamava, o amor, a saudade. Esta não demorou a chegar. Assim que entrou no mundo, repartiu-se ocupando todos os vazios deixados pelo amor dentro dos baobás. Cheios de saudade, os baobás voltaram a dar flores, embora não pudessem mais correr. Foi assim que aquele baobá foi parar na frente da Faculdade de Direito do Recife.  Foi assim que ele ganhou tanta cara de afeto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-117065086519594943?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/117065086519594943/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=117065086519594943' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/117065086519594943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/117065086519594943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/02/fbula-sobre-o-amor.html' title='Fábula sobre o amor'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-117031063857055212</id><published>2007-01-31T22:09:00.000-08:00</published><updated>2007-01-31T22:24:58.063-08:00</updated><title type='text'>Pró-nome reflexivo</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/1600/324334/picasso227.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/320/375647/picasso227.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Por vezes é se reduzir ao máximo,&lt;br /&gt;Encolher-se, retomar-se, pôr-se em posição fetal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes é abraçar as próprias pernas,&lt;br /&gt;contrair&lt;br /&gt;cada&lt;br /&gt;articulação&lt;br /&gt;do&lt;br /&gt;corpo,&lt;br /&gt;dobrar-se,&lt;br /&gt;conter-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, é – inteiriço –&lt;br /&gt;devorar-se, engolir-se, digerir-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes é não derramar gota de lágrima,&lt;br /&gt;chorar-se simplesmente, em mudez perplexa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes é não pronunciar palavra,&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;calar-se, silenciar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, não havendo palavra, é se permitir não ser,&lt;br /&gt;inexistir-se, desfazer-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes é acarinhar o tempo e deixar que passe:&lt;br /&gt;Doer-se, doer-se, doer-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Bruna Falcão, quem me socorre nas análises afetivo-sintáticas.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-117031063857055212?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/117031063857055212/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=117031063857055212' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/117031063857055212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/117031063857055212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/01/pr-nome-reflexivo.html' title='Pró-nome reflexivo'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-117002202799149885</id><published>2007-01-28T14:05:00.000-08:00</published><updated>2007-01-28T14:25:29.266-08:00</updated><title type='text'>Crônica sobre a ternura</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/1600/183145/monet187.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/200/542988/monet187.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Natália desnudava dos pequenos ramos as verdes folhinhas do alecrim, lembrava-me do modo como eu costumava escrever cartas de amor. A leveza das mãos da militante comunista tocando o cheiro do tempero que seria levado ao alimento descortinava as palavras. Tantas vezes escrevi cartas de amor em rompantes, na brutalidade de sentimentos arredios, de dores agudas, de indecifráveis quereres. O cuidado de Natália com o alecrim opunha-se a crueza das palavras das cartas que me vinham à memória. Era como se as palavras de amor, assim como o verde das folhinhas do alecrim, pedissem-nos ternura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorreu muitos caminhos o ramo de alecrim até chegar em nossas mãos. Houve quem o colheu, em meio a uma imensidão de outros. Houve quem o guardou para a viagem à feira, quem o depositou nas prateleiras do supermercado. Antes disso houve ainda quem – na tentativa de lhe tirar a poesia – conferiu-lhe um preço, uma cifra, como se um alecrim, sim um alecrim, pudesse realmente ser objeto do mercado. Até encontrar os carinhos das mãos de Natália, o alecrim conheceu outras gentes, outros ares. Mas foi ali, no instante em que servira de alimento, ao perfumar a cozinha, que o alecrim desmanchado cumpriu com sua função. E o fez acarinhado, como se o gesto terno de lhe retirar as folhas levado a cabo pela mulher a minha frente, realizasse-lhe a felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorrem muitos caminhos as palavras de amor até chegarem às cartas. Há quem as colha entre todas as possibilidades que a linguagem oferece. Há quem as guarde nas primeiras camadas da alma. Antes disso há ainda quem – na tentativa de lhes garantir poesia – confira-lhes um sentimento originário, uma dor, uma alegria, uma saudade, um furor. Até encontrar a escrita, as palavras das cartas de amor conhecem o indizível das gentes, o incognoscível das gentes e talvez elas – e apenas elas, as palavras – sejam capazes das cumplicidades silenciosas, tanto que antes da palavra, do verbo, tudo era silêncio e mesmo o silêncio, dada a inexistência do som, era também uma inexistência, mas uma que silencia. Mas é aqui, no instante em que a lágrima fere o horizonte, em que a alma toda vem às superfícies dos olhos e a saudade caçoa do tempo, que as palavras de amor que colho costumam cumprir com sua função. E o fazem com a violência dos amores que se sentem dores, amores demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Natália desnudava dos pequenos ramos as verdes folhinhas, as palavras e o alecrim se solidarizavam umas com o outro. A leveza das mãos da militante comunista tocando o cheiro do tempero que seria levado ao alimento descortinava minha própria necessidade de cuidado com as palavras e as cartas. Jurei então – e ratifico agora o juramento – que minhas próximas cartas de amor sofrerão de brutalidades somente em exceção. Compartilhar-se-á cada palavra com a ternura mesma com a qual se desfaz um ramo de alecrim. Das mãos de Natália em diante, estas cartas de amor que escrevo ao tempo, serão um afeto, um carinho, uma gratidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para Natália Paulino, em agradecimento pela nossa sexta-feira.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-117002202799149885?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/117002202799149885/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=117002202799149885' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/117002202799149885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/117002202799149885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/01/crnica-sobre-ternura.html' title='Crônica sobre a ternura'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-116977933193340924</id><published>2007-01-25T18:41:00.000-08:00</published><updated>2007-01-25T18:42:11.936-08:00</updated><title type='text'>Crônica sobre a madrugada</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/1600/270453/recife_07.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/200/612574/recife_07.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A cidade respira enquanto o carro se desloca na madrugada. Quem guia o automóvel percebe a ocorrência dos desencontros nas esquinas. A cidade conspira enquanto o carro se desloca na madrugada. Quem percorre as calçadas passa a conhecer estranhamentos. A cidade incita enquanto o carro se desloca na madrugada. As prostituas da Av. Conselheiro Aguiar recitam Vinícius de Moraes enquanto esperam seus fregueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade assassina enquanto o carro se desloca na madrugada. Meninos negros matam e morrem na metrópole miserável desvairada. A cidade lucra enquanto o carro se desloca na madrugada. Há quem trabalhe, há quem encha os bolsos, há quem se vicie e tudo está intimamente ligado. A cidade poetiza enquanto o carro se desloca na madrugada. Moças e rapazes sentados em bares falam do Governo, do show de Chico, da luta de classes e criticam o pós-modernismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade fere enquanto o carro se desloca na madrugada. Há um moço em frente a um teclado dizendo coisas inevitáveis. A cidade versa enquanto o carro se desloca na madrugada. As ruas trocam seus lugares, procuram umas às outras, percorrem-se à revelia, encontram-se e desencontram-se naquelas esquinas. A cidade ama enquanto o carro se desloca na madrugada. Mas quem guia o automóvel só percebe a ocorrência de desencontros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-116977933193340924?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/116977933193340924/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=116977933193340924' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/116977933193340924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/116977933193340924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/01/crnica-sobre-madrugada.html' title='Crônica sobre a madrugada'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-116958662181516718</id><published>2007-01-23T13:08:00.000-08:00</published><updated>2007-01-23T13:10:21.816-08:00</updated><title type='text'>Crônica sobre a padaria</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/1600/337672/Monet.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/200/906168/Monet.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O fim da tarde amarela o céu de Candeias. As crianças brincando nas ruas nem sentem a hora passar. Jajá as mainhas se debruçarão nas beiradas das varandas gritando pelos meninos. – Olha o banho, Paulinho! – Olha a janta, Carol! Os moços que ensaiam no louvor da Igreja Presbiteriana afinam os instrumentos. Daqui de cima, é possível ouvir o tinir de cada corda do violão. Do mesmo modo é possível perceber o sol baixando nas paredes dos prédios cujas frentes são ao poente. Vovó Nilza sempre dizia que não se deve morar numa casa ao poente: - As paredes ficam quentes a noite inteira. Os pardais piam antes do sereno ter início. O amarelo do céu, as cordas do violão e os pardais são uma única celebração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes é até difícil escrever com tudo acontecendo tão calmamente. Quando a tarde se comporta deste modo – e isso acontece quase que diariamente – as superfícies se tornam de um colorido que parece querer se perenizar. É como se os meninos brincando de pega-congelou, congelados, eternizassem-se junto às nuvens róseas do oeste. Com a calmaria, tudo se estende mais no tempo. A escrita perde a razão, o porquê, vira só sentimento e sente, aparentemente estática, materialmente inexistente, sente apenas, sente e não se consuma, consome-se. Até que o fim da tarde se desenlaça e os telefones tocam, os moços na Igreja tocam, os botões do teclado tocam, as campainhas tocam e o colorido amarelado se desfaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste instante Iemanjá ergue lentamente seus olhos sobre as águas. A praia está tranqüila, é uma terça-feira de um janeiro de um ano de Xangô e mesmo Iansã está pacífica entre as nuvens róseas, no que restou do rastro do sol no horizonte terrestre. Iemanjá então alisa o véu do mar e pronuncia “noite”, Dona Fátima me lembra da padaria e as mainhas gritam pelos meninos nos parapeitos. É noite em Candeias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-116958662181516718?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/116958662181516718/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=116958662181516718' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/116958662181516718'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/116958662181516718'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/01/crnica-sobre-padaria_23.html' title='Crônica sobre a padaria'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38547455.post-116952711970490360</id><published>2007-01-22T20:37:00.000-08:00</published><updated>2007-01-23T12:27:49.150-08:00</updated><title type='text'>Crônica sobre a floresta</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/1600/649634/125475683_2427399c68_m.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/2462/634/320/719390/125475683_2427399c68_m.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Há uma floresta de baobás no mais profundo desta alma. É um bosque de árvores gigantes que demandam bastante espaço entre umas e outras. São árvores cujas raízes de tão longas dançam ciranda com os meninos e as meninas que habitam a floresta. Os meninos e as meninas são domadores do tempo. Arremessam-no sobre as copas das árvores e ele despenca furtivo com o peso da gravidade dos corações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O solo sob as árvores é úmido e junto com os cogumelos nascem amores de juventude. Os meninos e as meninas pegam os cogumelos e os amores de juventude e desfazem o tempo, redesenham as fronteiras do que é matéria e do que é sonho. Por vezes, quando a paixão corre tresloucada entre os troncos dos baobás, alguns meninos e algumas meninas tranformam tudo o que é matéria em sonho, nada mais existindo que não seja menino, menina, cogumelo, amor de juventude, tempo, paixão e sonho. Ah! Permanecem também os baobás. Estes fincam suas raízes no peito de cada menino, de cada menina, até que eles e elas, cansados de tanto peso, remontam o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os meninos e as meninas não vêem, o tempo se fecha dentro dos troncos das velhas árvores. Aí se faz em passado, presente e futuro. Mas os meninos e as meninas, logo que percebem a ousadia do tempo, fazem-lhe cócegas, puxam a linha do horizonte, e se abraçam ao presente. O passado vira identidade, o futuro, os meninos e as meninas conhecem, ganha ares de esperança. Assim que enjoam do presente, as meninas e os meninos comem as flores dos baobás. Digerem tudo muito calmamente. Depois limpam os dentes com palitos de agradecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os baobás há fios invisíveis tecidos com o vermelho da história. Nesses fios os meninos e as meninas não bolem, a não ser quando chega a hora de partir. Neste momento os meninos e as meninas se despedem das velhas árvores e seguem com o tempo. Mas nunca vão todos. Sempre nascem novos meninos e meninas na floresta e sempre estão eles e elas a pular entre as raízes dos baobás. Os meninos e as meninas que ficam recebem dos baobás um remedinho contra a ausência do tempo ou o seu excessivo prolongamento que as árvores chamam de saudade. Até que esses meninos e essas meninas também se deixem ir pelos fios. Todos e todas um dia o fazem. Os baobás não, estes sustentam tudo – a não ser quando se sustentam nos corações dos meninos e das meninas – e em seu sustento há uma palavra, um gesto, um compartilhar que os meninos e as meninas têm a mania de amar: a poesia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38547455-116952711970490360?l=entrebaobas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://entrebaobas.blogspot.com/feeds/116952711970490360/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38547455&amp;postID=116952711970490360' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/116952711970490360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38547455/posts/default/116952711970490360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://entrebaobas.blogspot.com/2007/01/crnica-sobre-floresta.html' title='Crônica sobre a floresta'/><author><name>Beto Efrem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18145700754315065118</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
